segunda-feira, setembro 08, 2008

Falanstério 78 - Quando nós vivemos!

Nas alturas.

No dia 7/09, o Brasil comemora a Independência. Desfiles, militares, políticos querendo mostrar poder. Mas no ano de 2008 alguns ciclistas/poetas não comemoram a liberdade (?) de um povo. Percorreram as ruas da "Paulicéia Desvairada" com o intuito de conhecer os locais que o escritor Mário de Andrade disse onde deixaria as partes do seu corpo depois que fosse para outra dimensão.

Ponto de encontro de sempre.

Tinha tudo para ser um dia inspirador. E foi! Durante a semana as previsões indicavam chuva e tempo frio. Mas Mário de Andrade não iria deixar uma dia especial sobre ele molhado e gelado. O sol amanheceu tímido entre as nuvens, assim como as pessoas que iam chegando na Praça do Ciclista. A saída estava marcada para as 9:00 da manhã. Mas pedir pontualiadade num domingo que tinha cara de chuva era pedir muito. Depois de esperar alguns colocarem suas bandeirolas nas bicicletas (doadas pelo gentil Haase) e aguardar alguns atrasados o primeiro Pedal Cultural partiu às 9:30.

Alegria!!!

Estávamos em 25. Esse número foi aumentando e diminuindo durante o passeio. Mas todos sempre juntos com apenas um objetivo, viver a vida com alegria e compartilhar conhecimento. "Guiados" pelo maestro Toni descemos a Rua da Consolação e fizemos a nossa primeira parada. Paramos no Cemitério que tem o mesmo nome da rua. E ali começou o que teríamos em todas as paradas; a História contada por Toni, as árvores explicadas por Mig e as ruas com seus nomes explicados por mim.

"O nariz guardem nos rosais."

Na Rua Maria Antônia mais um recital de estórias. "O joelho na Universidade. Saudade.", assim Andrade disse. Depois esquecemos a cabeça do poeta na rua Lopes Chaves, como ele mesmo pediu. Paramos exatamente no cruzamento da rua que leva o nome do escritor que ajudou a realizar a Semana de Arte Moderna de 1922. Lógico que tínhamos que parar por ali. Mig com mais uma bela aula sobre a vida verde e Toni com sua memória estupenda fez até quem estava de carro ouvir mais uma parte da História.

Maria Antonieta?

Fizemos uma pausa estratégica para reabastecer. Mas quando ciclista para no posto não é para colcocar gasolina e sim calibrar pneu e encher a pança. Energias recuperadas e pedalada rumo ao Pico.

Amizade.

Depois um pouco de cicloativismo. Fizemos um teste pela ciclovia da Avenida General Edgar Facó. Analisamos e pedalamos por ali e chegamos numa conclusão; quem planejou a "ciclovia" não anda de bicicleta e não sabe o que é realmente uma ciclovia. Mas pelo menos fizemos um divertida mini-mandala.

A ciclovia serve para diversão.

Nossa próxima parada era o Pico do Jaraguá. O maior desafio do dia. Ainda não sabíamos se iríamos pedalando ou pararíamos na base e subíamos a pé. Tivemos que esperar o amigo Toshio na estação de trem Vila Clarice. Uma troca; sai Laércio e entra Toshio. Enquanto aguardávamos o câmbio paramos numa praça e descontraímos mais um pouco. Piadas do Canna alegravam ainda mais o ambiente.

A hora das estrelas.

Toshio se juntou à Massa Cultural e fomos rumo ao Pico. No caminho muitos buracos e algumas subidas. Uma parada na reserva indígena próxima a base da montanha e começamos a pedalar. Ninguém ousou em deixar a bicicleta na base e subir a pé. "Ciclista que sou, ao meu destino vou.". Esse era o espírito. A subida começou leve. O visual era deslumbrante. 4 km só de subida até o cume.

Apenas o começo.

Sempre fui motivado pelo hermano Toni a desbravar essa montanha e hoje era o grande dia. Eu tinha apenas uma coisa em mente, não descer da bike e chegar até o final. E assim fui fazendo. Toni me avisou que os 600 metros finais eram de queimar os músculos e ele tinha razão. Me concentrei. As pernas queimavam, pediam para parar, mas a mente e o coração estavam estimulados a não desistir. Pneus trator e uma mochila pesada no bagageiro dificultavam ainda mais a pedalada. O ritmo foi diminuindo mas as pernas se mexiam. Quase no final, uma vista arrebatadora da cidade de São Paulo surgiu encoberta por uma agradável neblina. A visão me motivou ainda mais e escalei com mais força. Na última curva a glória! Cheguei no Pico do Jaraguá. Dividi a alegria da chegada com Ju Highlander e Mig. Quando parei a bike e coloquei as pernas no chão, os músculos tremiam, mas não de medo e sim de força!

Adelante Maestro.

Aos poucos todos foram chegando. Um mais cansados que os outros, mas o que importava que todos estavam no alto. Mário de Andrade recitou: "Os olhos lá no Jaraguá, assistirão ao que há de vir.". Nossos olhos viram coisas fascinantes. A alegria de cada um em realizar esse desafio, a vista do alto da "Paulicéia Desvairada", a empolgação de Toni ao contar as lendas do Pico. As fotos tiradas com emoção. A aula de relaxamento/alongamento feita por meninas e menino. Tudo perfeito.

Inspira e Respira.

E para melhorar ainda mais o sol apareceu. Saiu das nuvens e iluminou ainda mais o nosso dia. Um pic-nic foi montado no anfiteatro do Pico. Queijos, vinhos, geléias, torradas e muita descontração. O sarau começou. Poesias e poemas eram declamados. Músicas eram entoadas e risos eram jogados no ar. O clímax foi quando Mig retirou sua flauta da mochila e chamou todos para dançar. Foi espontâneo. O som saiu da flauta e nós começavamos a nos mexer. Palmas, passos de dança, pulos e troca de carinhos este foi o resultado da canção entoada no alto da cidade.

Voando literalmente.

Quem estava de fora olhava curioso. Parecia que queria entrar na festa. Mas muitos tinham vergonha. Mas uma pessoa não teve. A pequena e bela Flávia com seus cabelos dourados e poucos anos de vida. Apareceu como uma folha que veio voando de um local distante e se juntou a nós. Repassou alegria, aumentou a descontração e fez todos ficarem encantados com seu jeito de falar "De novo" e pedir mais uma brincadeira. Um anjo que passou e depois se foi.

La bella ruvia.

Depois desse momento inesquecível reunimos nossas coisas e partimos para a descida. Momento de muita concentração e habilidade. O grande perigo eram as curvas e os malucos/irresponsáveis que pegam caronas nos carros que sobem e depois descem em bicicletas de péssima qualidade a todo vapor sem temer por sua vida e pela dos outros.

Sem medo de cair.

Eu desci no pelotão da frente. Numa média de 65 km/hora cheguei na base alucinado com a adrenalina da descida. O pessoal que vinha atrás estava demorando a chegar. Nós que estávamos esperando ficamos preocupados. E quando começamos a subir o Pico de novo a Massa surgiu. A demora foi devido à duas quedas. Haase que teve a infelicidade de bater de frente com um dos malucos/irresponsáveis que caiu do carro que segurava para subir e acabou aparecendo na frente do nosso amigo. E Toshio que se empolgou com os 70 km/hora, marcados no velocímetro e esqueceu de fazer a curva. Algumas escoriações, dores, mas nada que poderia fazer eles pararem.

Primeiros socorros.

Após o susto seguimos até a Rua Aurora no Centro de São Paulo. Quatro preferiram seguir de trem/metrô e os que ficaram foram pedalando até o próximo sarau. Chegamos em exatos 60 minutos. E ainda chegamos antes dos que foram de trem. Mais um intermodal vencido pela bicicleta. A feira que estava no cruzamento da Aurora estava terminando. Compramos bananas que foram distribuídas entre todos. Quatro ciclistas que dormiram até mais tarde se juntaram na Massa. Depois que "enterramos" os pés de Andrade na Aurora continuamos o trajeto.

Yes, nós temos banana.

No Largo do Paissandu deixamos seu sexo, no Correio escondemos seu ouvido direito; e o esquerdo deixamos nos Telégrafos. "No Pátio do Colégio, afundem meu coração paulistano: Um coração vivo e um defunto bem juntos.". O poeta pediu que deixasse seu coração onde a cidade foi fundada e por lá ficamos.

Aula a céu aberto.

Nas badaladas do Sino da Paz terminamos a poesia. Luzes que surgiam através do gás. O sol que ia embora aos poucos. A flauta mágica do Mig sendo entoada mais uma vez, agora com a companhia da doce voz de Polly. Passos de dança mais tímidos, porque o momento era de instropecção. No final da melodia, um forte aplauso. Não deixamos a língua do poeta no Ipiranga porque o tempo foi curto. Mas foi bom. Ele nunca deve parar de falar. Deve estar sempre presente em nossos corações e que todos possam compartilhar seus ensinamentos. Foi o primeiro Pedal Cultura, mas foi apenas o começo, porque se Bicicleta é poesia, Bicicletada é diversão e arte!

Roda da Paz.

Mais informações, fotos e relatos:

Pedalante - Foto Pedal Cultural
Fourier - Fotos Pedal Cultural
PedaleToni Vídeos - (1) (2) (3)
O Guia Verde - Por Priscilla Santos
Fahrrad - Fotos Pedal Cultural
Fahrrad Vídeos - (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9) (10)
Apocalipse Motorizado - Massa de Domingo, o Pedal Cultural
Bicicletada.org - Pedal Cultural
Mocó do Canna - Foto Pedal Cultural

10 comentários:

Silvio Tambara disse...

se meu coração não tivesse ficado na graciosa ele teria se desmanchado ontem pelas cinzas ruas de são paulo. tudo tão bonito, tão tocante. teu relato muito bom. faltou falar que o pedal terminou em sorvete. abraço.

Laércio disse...

Muito bom. Muito bonito. Tive o prazer de participar da primeira parte, até o trem, e lamento muito não ter participado dos outros momentos, mas também tive meus momentos bonitos vividos no sorriso do meu filho.

Muito orgulho e felicidade por fazer parte desse grupo!

Mig disse...

Quanta coisa bonita falada, lida, sentida, compreendida, observada, cantada, vivenciada, aprendida, compartilhada, pedalada!

Aninha disse...

Sister....que coisa mais linda! Ameiiiiiiiii seu post. Palavras belas, me senti lá! Pena que esse meu joelho não esta colaborando...mas eu vou voltar e mais um monte de outras histórias juntos poderemos rabiscar.

Te amo Sister

Eduardo Marques Grigoletto disse...

Muito bom! Nossa, se arrependimento matasse...na noite anterior caiu aquela chuva, acabei desencanando e dormindo até mais tarde, chuif!

De qualquer forma, seu texto fez com que sentisse como se tivesse participado. Parabéns!

Abraços.

Gira disse...

quer dizer que frank é o seu preferido? huuumm, fico entre elvis e sid vicious...rsss. mas a nina manda bem também! adorei seu relato, fiquei emocionada, a maior vontade de ter participado. e parabéns pela garra na subida do jaraguá! no próximo eu vou! beijos

Mario disse...

Esse menino tá escrevendo muito bem, pena que é tudo mentira.

PEDALANTE disse...

São Paulo é uma cidade plural, cheia de cores e de formas, com erros e acertos. Lembra um pouco uma colcha de retalhos, feita por várias pessoas. Por isso é importante termos uma noção histórica das diferenças existentes para os acertos futuros sejam muito maiores que os "erros do passado". Tenha isso em mente e lembre-se que você também é diferente para muitos.

André Pasqualini disse...

Parabéns a todos... é triste ficar de fora de um passeio, justo eu que estou cansado de ouvir lamentações das pessoas que não foram no passeios que participo.

Espero que no próximo eu consiga ir, mais pedais, cultura e alegria, tudo que precisamos, tudo que o mundo precisa.

João Lacerda disse...

Simplesmente fantástico.

Deu vontade de ir, mas a nublada manhã de domingo que não pedalei passou em branco. Felizmente dá pra ler esse belo texto!

abs